A EDUCAÇÃO AFECTIVO-SEXUAL, Margarida Gonçalves Neto
A EDUCAÇÃO AFECTIVO-SEXUAL
Margarida Gonçalves Neto
Coordenadora Nacional para os Assuntos da Família
 

Quero vivamente louvar a realização deste Congresso no qual se procura fazer um balanço sobre a educação sexual nas últimas décadas.  E também  agradecer a  sua realização no âmbito do calendário do décimo aniversário do Ano Internacional da Família.

 A tarefa não é fácil.  A afectividade  e a sexualidade, são dimensões das mais profundas da nossa humanidade.  Sem elas não existiríamos enquanto  pessoas. 

Nascemos com  a evidência de termos um sexo, de sermos meninos  ou meninas, mas tornarmo-nos homens e mulheres  é um processo evolutivo que nada tem de automático ou de definitivo. 

A  realidade afectivo-sexual é uma dimensão constitutiva da pessoa, estruturante  da sua identidade  e determinante do seu desenvolvimento.

Trata-se de uma  “energia que nos motiva a procurar contacto, afecto,  prazer, bem estar e que influencia pensamentos, acções e interacções”. 

É,  então, um movimento continuado que vai da centralização em si mesmo, à abertura  ao outro,  à descoberta e à  aceitação das diferenças. Um processo de crescer, uma maneira como cada pessoa se vai descobrindo homem ou mulher,  como vive a masculinidade e a feminilidade, ou como vive  o sentido masculino e feminino da vida.  Como se relaciona consigo e com os outros, como reconhece e aceita as suas diferenças ou as diferenças entre as pessoas. Reconheço-me mulher porque não sou homem. Um sexo coimplica o outro. É a descoberta do não Eu, do distinto  de mim, que gera a  própria consciência do Eu. Sou o que sou a partir do outro. Sem o outro não existo, não me posso perceber. Num tempo que apaga a diferença entre os sexos, julgo que  precisamos continuar a afirmar que as diferenças nos polarizam,  permitem encontros, tensões, complementaridades, construção de intimidades.  O desafio que a sexualidade nos coloca, joga-se na descoberta e aceitação de múltiplas diferenças. 

Sabemos que a sexualidade integra várias dimensões que se interligam:

·        Biológica – relativa ao corpo e as suas transformações ao longo da vida.

·        Psicológica – relativa às emoções, aos sentimentos, aos afectos e às atitudes.

·        Comunicativa e relacional – a que diz respeito às relações entre as pessoas, às maneiras de  comunicar, estabelecer laços e compromissos. 

·        Ética – relativa às opções e às responsabilidades da vivência sexual perante si e perante os outros.

·        Sociocultural – que diz respeito à influência da cultura, dos valores, das normas e das leis.

·        Espiritual – que diz respeito à relação com o transcendente, com o sentido da vida, da morte e da existência.

 

Voltemos de novo à ideia  de que a sexualidade é motor do desenvolvimento.

Um desenvolvimento humano progressivo, conquistado etapa em  etapa, prolongado no tempo.   Levamos muito tempo a crescer ao nível biológico e afectivo.    Podemos mesmo dizer que ao nível afectivo crescemos toda a vida. Tentamos, no processo  de amadurecimento, “apurar” a maneira de  amarmos e sermos amados. 

Como grandes marcos neste processo, recordemos que precisamos de um mês para sorrir,  alguns meses para compreender que o corpo da mãe  é outro para além do “meu” corpo, um ano para andar, 2 anos para falar, 3 anos para entender que se é menino ou menina, 10 anos para construir uma identidade  de género infantil, 18 anos para consolidar uma  identidade de género adulto e a orientação sexual,  ser capaz de relações mais intimas, progressivamente mais comprometidas,  interiorizar valores, lutar por eles, descobrir o sentido da vida, fazer escolhas fundamentais. 

O impulso, a dinâmica, a energia de todo este desenrolar físico e psicológico é o amor, os outros afectos, as relações humanas.  Como é evidente, um processo sério de educação afectiva e sexual tem de ter este enquadramento e o propósito de colaborar e contribuir decisivamente para o amadurecimento  e o equilíbrio do desenvolvimento de cada pessoa e da qualidade das relações que estabelece com os outros  e com a vida. 

É conhecida a experiência do casal Harlow, com os macaquinhos recém nascidos.  Estes macacos foram colocados perante modelos de mães substitutas,  artificiais – uma de material felpudo e suave, mas sem leite. A outra, feita de arame, mas com leite.

Verificou-se o que facilmente intuímos.  Os macacos bebés dirigiam-se à mãe de arame durante o tempo estritamente necessário para se alimentarem de leite e voltarem rapidamente à mãe de feltro, ali permanecendo no aconchego e acolhimento.

Só a presença da mãe acolhedora, aconchegante, preenche a  necesidade de afecto e segurança.

É tão determinante a afectividade na nossa vida, que é talvez por isso, que o tempo  da  vinculação,  do  apego e do crescer é como vimos, tão prolongado. 

Há quem afirme ser esta uma das razões pelas quais , desde o aparecimento da espécie humana, ao longo da sua evolução foi caindo o pêlo,  para maior desejo e necessidade de contacto pele a pele, cheiro a cheiro, corpo a corpo.  Por isso  a espécie humana  se busca e olha de frente,   procurando  a expressão do  rosto do outro.    

Há também quem defenda  que a fêmea  humana foi e é portadora de orgãos  sexuais colocados em situação de permitir que a relação sexual  se possa também desenrolar de uma outra maneira, de uma nova maneira, face a face, os dois – homem e mulher olhando-se nos olhos, reconhecendo-se, permitindo-se. 

Só  o afecto, a segurança nos permitem sobreviver,  ultrapassar dificuldades,  desenrolar e desenvolver a nossa vida. 

É por estarmos habitados por afectos que podemos escolher ou aceitar ficar sózinhos ou estabelecer relações e compromissos. 

São os afectos que permitem viver o tempo, a memória, o que  aconteceu, o que não aconteceu, o que acontece, o que acontecerá.  Um passado, um presente, um futuro  que nos habita. Um mundo de continuidade a que o afecto dá consistência e significado. 

É neste tempo e neste processo que a sexualidade se vai desenvolver, do bebé à criança, ao adolescente, ao adulto, ao idoso, ao casal e de novo à criança até ao idoso.   Um ciclo  em que se começa e recomeça. 

Grandes são os desafios que se nos colocam.   Da fusão à autonomia, do eu ao outro, da descoberta à aceitação, do igual ao diferente, da paixão ao amor, do desejo  à ternura, do prazer ao sofrimento, do já ao ainda não, do medo à intimidade, do vigor à involução, da alegria ao sofrimento, da vida à morte.

São tantas as questões colocadas neste processo, que se torna evidente que a educação afectiva  e sexual é essencialmente uma educação para a vida, para o desenvolvimento da pessoa., incluída naturalmente no processo educativo geral, ao longo da vida. 

Os pais são, neste processo educativo,  os primeiros educadores.   Essa tarefa é insubstituível e é também ela, para toda a vida.   

À escola, aos movimentos, às diferentes instituições, à comunicação social pede-se uma colaboração estreita, outros saberes complementares e necessários, em articulação com a família. 

Permitam-me aqui uma nota.    No programa do actual Governo e na área da Política de Família,  está consagrada  a execução do Plano Global para a Família – 100 Compromissos  Para Uma Política de Família. 

Nesse documento, na área Família e  Educação encontram-se dois compromissos fundamentais  para o que aqui estamos a debater: 

Compromisso 25  -  Assegurar uma verdadeira e efectiva liberdade de opção educativa e formativa.

Compromisso 28 -  Criar condições para avaliar o desenvolvimento adequado nas escolas de uma área  disciplinar que verse a educação para a sexualidade e a educação para a saúde, no âmbito da formação e do desenvolvimento pessoal, respeitando a livre opção da família. 

É este o caminho prometido,  espero sinceramente, que o possamos percorrer. 

Voltemos, com algum pormenor,  às etapas do desenvolvimento afectivo-sexual: 1ª grande etapa, já vos falei dela.  Decisiva e fundamental -  a relação  mãe-bebé.  Nela se é reconhecido e amado, nela  se encontra segurança e acolhimento desde a vida intra-uterina.  Já aí se descobriu uma pessoa, um sexo, se lhe deu  um nome, se lhe sonhou a vida.   

Pequenos toques no abdomem provocam uma resposta no bebé,  há reacções sincronizadas,  canta-se-lhe, fala-se-lhe e sabemos hoje, que o bebé ouve e se encanta, memoriza e reage.   

Ao nascer, o bebé sente-se tocado, acarinhado, beijado.  A proximidade física com a mãe é-lhe vital   e a qualidade deste aconchego, deste colo, onde o bebé aprende a abandonar-se e a interdepender é fundamental.    Ali vai aprender os primeiros  gestos  de ternura e intimidade, que  repetirá mais tarde nos seus próprios filhos e em outro tipo de relação amorosa.  

O bebé aprende também que existe  um pai  e que não pode ficar para sempre ao colo da mãe.   Compreende que a mãe não preenche todas as suas necessidades. É dos primeiros sofrimentos que temos de viver.  A mãe, que estava ali,  inteira só para ele, tem também uma outra vida e outros para cuidar.  

O estádio dos 0  aos 2 anos é marcado pela oralidade, procura de prazer e do conhecimento das coisas através da boca, desde a sucção até ao  desenvolvimento da fala.  Estimulada pelos pais a criança vai conquistar progressivas autonomias. Aprender a gatinhar, a andar, a ir mais longe, a falar, a controlar os esfincteres,   

Aos  3 anos  apetecia-lhe  fazer cocó  e xixi em qualquer lado porque tem prazer nos  jogos de  retenção e expulsão das fezes,  mas os pais dizem-lhe que não e ei-la a aprender a esperar. Deixa de fazer o que quer,  para  agradar ao outro e ficar feliz por isso.    Esta é a aprendizagem do processo de sublimação, essencial no caminho da maturidade e que vamos utilizando com maior  ou menor eficácia ao longo de toda a vida. 

Aos 4 anos tem particular atenção aos orgãos sexuais.  Manipula-os, desenvolve-os,  tem agradáveis sensações e por isso, repete-as.    Se for castigado, entenderá o prazer como culpabilizante  e o corpo como  coisa suja ou má.    Se o comportamento for encarado com a naturalidade e a tolerância necessárias, seguirá o seu percurso normal e a criança avançará descobrindo outras coisas/situações igualmente agradáveis. Compara-se com os outros meninos e as outras meninas. Interroga-se sobre os porquês das diferenças nos orgãos sexuais.  Porque é que as meninas não têm pénis? E eu,  será que o posso perder?  Esta é a  conhecida angústia de castração. 

Compara o pai com a mãe, compara-se, descobre novas diferenças, tem desejos novos de aproximação e, se é rapaz,  imita o pai para se aproximar da mãe e se é rapariga  aproxima-se do pai para imitar a mãe.  Estamos no famoso processo Edipiano ou de Electra. 

A intensidade e o conflito decorrentes da aproximação ao progenitor do sexo oposto, são resolvidos pela identificação  com o progenitor do mesmo sexo. Assim se interiorizam ideias, gestos, comportamentos da masculinidade e da feminilidade.   O processo é por vezes turbulento,   mas as forças positivas que temos  em maioria dentro de nós, vão ajudar a ultrapassar estas crises e a aceitar o triângulo composto  pelos pais, que também são casal e ela própria, a criança. 

Dos 6 aos 10 anos, é a fase  da latência.  Há um certo equilíbrio, que permite uma progressiva socialização,  pela aprendizagem na família e na escola.  Tudo pergunta, tudo quer saber.  Entende  papéis, regras, gosta  de ter um grupo de pertença.   Tem uma infindável curiosidade por tudo,  em particular  pelo mundo e comportamento dos adultos, por aquilo que observa e também  vê, sobretudo no cinema e televisão.

Conhece  melhor  outros  grupos e outras famílias.  Compara-as, é crítico, pergunta aos pais sobre si próprio, como e porquê nasceu, como foi a gravidez, como era em bebé, como os pais se conheceram  e pede para repetirem estas memórias muitas e muitas vezes, como que procurando embalar-se pela sua própria história e pela confirmação do amor recebido.  

Interioriza regras e valores morais.  Com esta idade, sabe perfeitamente o que é bom, o que é justo e o que é mau.

Aos 10  anos, completada a idade da  latência, tem constituída uma identidade do género infantil. 

Aos 10 – 13 anos, início das grandes transformações no corpo.  Desorganiza-se  a imagem corporal até aí  lentamente adquirida.   Tem manifestações de excitação sexual, gestos mais desajeitados num corpo que cresce repentinamente e entra na puberdade.

A revolução hormonal em curso,  faz  evoluir as características sexuais secundárias, o ciclo menstrual nas raparigas  e a capacidade ejaculatória nos rapazes.   A partir daqui,  o corpo  adquire possibilidade de se reproduzir. Sente desejos e sobressaltos.  A nível psicológico , inquietações e dúvidas, por vezes isolamento social.   A masturbação é tensão e sinal de novas descobertas ao nível do corpo e do prazer.   Por insegurança e necessidade de identificação  procuram-se primeiro amizades do mesmo sexo, antes de chegar aos outros do outro sexo.  Mantém intensa curiosidade pelas  manifestações da sexualidade. Tem perturbações, medos e fantasias e adquire mais autonomia face à família.

Nesta fase,  é preciso anunciar-lhes a puberdade e suas modificações, antes que elas aconteçam.

A puberdade permite a aquisição de um corpo adulto, com possibilidade de reprodução. O poder ser pai e mãe a nível biológico,  deve ser dito não para assustar, mas para introduzir conceitos essenciais de encantamento  e responsabilização  pelas possibilidades  da vida de que o corpo é fonte. 

Dos 13 aos 15 anos, o corpo e a imagem corporal são essenciais.  O adolescente preocupa-se com o corpo, com a aparência, com os estereótipos do grupo.  É fundamental a progressiva afirmação do eu e por isso, desafia permanentemente.  Procura a segurança e o aconchego que buscava no colo da mãe, agora no  grupo de amigos escolhidos.  Alterna períodos de isolamento, com novas e grandes amizades.  Nestas grandes amizades aprende novas intimidades.  Desperta para novas dimensões do afecto e do prazer na relação com outras pessoas  Tem mais fantasias  sexuais.  Pode ter dúvidas, uma ambivalência quanto à orientação sexual.  Isto não é descobrir-se homossexual e muito menos  assumir-se  homossexual.    Reforçar conceitos e modelos de  heterosexualidade  é importante.

Preocupa-se pouco com as consequências dos relacionamentos.   Defende o que apetece, o que é natural e expontâneo.

É essencial falar-lhes  das modificações do corpo, da insegurança, da turbulência  afectiva e dos sobressaltos que sentem.  Ajudá-los  a aceitar a sua individualidade, o seu ritmo  de crescimento.  A desenvolver uma atitude  positiva perante si e perante os outros.   

É preciso falar-lhes de sentimentos e emoções, de masturbação, de relações sexuais,  da responsabilidade nos comportamentos, do conhecimento do corpo e dos sinais de fertilidade, de homossexualidade,  de comunicação e diferenças entre rapazes e raparigas.  Transmitir a ideia de que não fazemos tudo o que nos apetece,  ouvi-los, fazê-los  pensar, estimular o pensamento crítico  e construtivo,  a vontade, a capacidade de fazer escolhas. 

Mais tarde,  ou até ao final da  adolescência, consolida a chamada identidade  sexual do género que se designa então de género adulto.  Deverá perder a ambivalência quanto à orientação sexual.  Explora e experimenta a realidade, desafia, tem enorme sentido crítico, mas também tem projectos utópicos e quer mudar o mundo. 

Discute o amor, as relações sexuais,  tem maior desejo de intimidade, faz projectos de vida, escolhas cada vez mais pessoais, questiona-se sobre maneiras de agir, estabelece relações geralmente exclusivas, ainda que possam ser temporárias. 

Progressivamente, orienta também o interesse e o afecto, face a valores  e a ideias, valoriza  a liberdade, o amor, a espontaneidade, a tolerância, a solidariedade, o prazer, os tempos livres, a noite, a música, a abertura a novas experiências, às vezes e tantas vezes de  muito risco, como o alcool, drogas, velocidade excessiva, comportamentos  sexuais de risco, etc.   Tem grande necessidade de autonomia na maneira de ser, de pensar e de agir.  Nesta fase, atinge-se de facto, a identidade de género adulto. 

Devem continuar a trabalhar-se aqui e sempre as questões anteriores, mais as noções de compromisso, de estabilidade, de constituição da família. 

Todas as questões que fui referindo são a base de um trabalho em educação afectivo sexual. 

Não me revejo em conceitos redutores que fazem da educação sexual um aspecto da saúde sexual e dos direitos reprodutivos.   A educação sexual é na sua essência, uma educação para a vida.  O amor dura enquanto dura e  curtir é preciso – parecem ser as palavras de ordem de cultura juvenil de hoje.

Mas quando os nossos estudantes gritam  nas ruas pela urgência de uma educação sexual, o que estão, de facto a pedir?

Afinal que educação sexual temos e queremos? Com quem falam os adolescentes sobre a vida? 

Quem os ajuda a filtrar a cultura dominante. Os valores e comportamentos veiculados pelos Media?  Quem lhes fala que a paixão é um sentimento belo e intenso, mas temporário?   Quem lhes diz que o amor exige um esforço  e uma renovação quotidiana?   Que não é só um sentimento?  Que não é fácil.

Quem lhes diz que emoção, ternura, sensualidade, desejo, paixão, amor  são coisas diferentes?  Que o corpo é lugar de descoberta, mas também lugar de vida e responsabilidade?  Que prazer e dor são duas faces da mesma moeda?  Quem está com eles no terreno, para ouvir e conversar, dar testemunho?   Com quem podem descobrir  que o desejo  não comporta necessariamente a sua imediata satisfação?   Quem lhes diz que a espera e o tempo podem aprofundar a relação  e desenvolver diferentes expressões  de amor e  do próprio erotismo?  Quem trabalha com eles a comunicação  e a expressão  verbal e não verbal?  O corpo, o prazer, o sofrimento, o desejo, o sentido da vida e da morte, a necessidade de fazer escolhas,  a defesa da vida, casamento/filhos ?  Deus?  A eternidade? A felicidade? 

A educação afectivo-sexual em que acredito, é este trabalho:  A  busca de respostas às muitas  perguntas que a vida comporta. Em nós mesmos, e nas relações que estabelecemos uns com os outros. 

A actual cultura dominante,  tende a confundir a sexualidade com a genitalidade e a reduzi-la a uma pulsão, uma excitação , uma função,  em busca exclusiva de prazer. 

As relações pessoais são cada vez mais superficiais, consumistas delas próprias, baseadas na necessidade.  Não há tempo, vontade ou paciência para o encontro mais profundo com o outro.  A internet, o telemóvel, a globalização, facilita-nos a vida,  em velocidade e eficácia da  comunicação, mas não assegura o verdadeiro encontro interpessoal. 

Toda a actividade é para o prazer, senão, não vale a pena.  A vida é curta, dizemos continuamente. É preciso tirar dela, o que  ela de melhor nos pode dar.  Já e intensamente, sempre e outra vez.  Estão ao alcance  de todos (porque hoje tudo se mediatiza e vende) as diferentes técnicas e instrumentos que,  ao nível da sexualidade, pretendem melhorar o desempenho sexual. 

Veículam-se modelos de comportamento e novos estereótipos  de uma rigidez tremenda.  Se  observarem as revistas que diariamente temos nos quiosques, sobretudo as revistas de adolescentes com enormes tiragens, os títulos repetem-se: “Como atingir o orgasmo simultâneo”, “Conheça os truques para o seduzir”, ”O que ele gosta, o que ela gosta”, “As melhores fantasias”, “Como preparar uma noite inesquecível”, etc, etc. 

Já dizia Victor Frankl que o prazer  escapa a quem só procura o prazer.  E os sexólogos  vêm  agora esclarecer que a essência do erotismo nos é dada  pela  ligação entre o prazer e o interdito.    Aquilo que vulgarmente  se diz  “ que o fruto proibido é o mais desejado “.  É necessário o interdito, para continuarmos a desejar. Sabemos que o desejo sexual se perde num mundo sem regras e sem interditos.   

Françoise Dolto,  psicanalísta põe o dedo na ferida, quando afirma que os nossos jovens se amam hoje, quase como irmãos.  A banalidade da sexualidade terá provocado o que ela designa pela dessensibilização à própria sexualidade.

Entretanto, ou por isso mesmo, os nossos  consultórios enchem-se de pessoas e de casais com queixas cada vez maiores de  esvaziamento,  da falta de mistério, da falta de encanto, da falta de desejo.

“A sexualidade quando queremos, corre bem,  só que não nos apetece,  já não me apetece”. 

Dirigidos para o prazer, esquecemos o encontro; sabendo hoje  muito mais sobre as “técnicas sexuais”,  fugimos ao essencial,  lá onde nasce o desejo. É necessário  conhecê-las bem, para compreender o que está em causa no processo  de Educação Sexual. 

Termino, reafirmando que reflectir sobre a afectividade e a sexualidade é pensar a vida, a existência. Esta reflexão envolve diferentes opiniões, ideologias, filosofias.  Trata-se de um tema em que é impossível ser-se neutro.   Esta é uma questão crucial do nosso tempo. 

Coexistem  diferentes modelos educativos e pedagógicos. Creio que a educação sexual de que precisamos, se deveria centrar no respeito pelas etapas do desenvolvimento afectivo, na descoberta do que sou, do que é o outro, o que é a relação entre mim e o outro, o  meu corpo, os meus afectos, os meus compromissos,  a responsabilidade, a ética e os valores.   Não é coisa pouca.  

Estamos  aqui porque somos ambiciosos. 

Sabemos que através da educação da afectividade e da sexualidade é possível trabalhar melhor a identidade, a comunicação, a qualidade e a estabilidade das relações afectivas, a implicação num projecto de vida.  

Em suma, estamos aqui porque acreditamos que esta aposta é caminho da esperança e felicidade. 
 

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